quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

SEGUNDA VISITA A XIANGYANG (COM PASSAGEM PELA VELHA CASA) *


Há muito tempo atrás, quando cheguei a Xiangyang,
havia apenas começado a deixar crescer o bigode.
Agora, de novo em Xiangyang, 
já tenho as patilhas e o bigode grisalhos.

Todas as memórias daquela viagem são hoje um sonho:
chegara apressado, e cheio de pressa ao lar retornei.

Aquela casa com telhado de palha, a este da muralha,
meio desfeita - quem nela agora habita?
A maior parte dos velhos amigos dispersou-se 
e desapareceu. Até a povoação mudou de lugar.

Apenas as águas outonais do rio,
cobertas pela neblina, ondulam como outrora.





Bai Juyi (774 - 846)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa proposta por Burton Watson.)








(*) Xiangyang situa-se na província chinesa de Hubei, embora já não exista com total individualidade. Tendo sido unida à cidade (Fancheng) da margem norte do rio que a ambas servia de fronteira, dá hoje pelo nome de Xiangfan. Onde em tempos dois pólos se ergueram, actualmente um só prevalece. 
O pai do poeta viria a falecer em Xiangyang no ano de 796, no posto oficial local. A "velha casa" que o poema refere seria, por ventura, uma antiga habitação familiar, embora Bai Juyi não dê a entender que ele tenha nela feito residência. O rio que nos planta a imagem final do poema é o Han, que como já se sabe atravessa nos dias de hoje a nova cidade de Xiangfan. 










(Muralha da antiga Xiangyang, sobranceira ao rio Han)








quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O conselho de Rumi


O ser humano é uma casa de hóspedes
Cada manhã há recém-chegados:
Alegria, tristeza, maldade
Cada um deles é um visitante inesperado.

Acolhe-os e atende todos
Ainda que sejam só desgostos
E arrasem violentamente
Os móveis de tua casa
Ainda assim, trata-os a todos com respeito
Pode ser que te estejam limpando o horizonte
Para um novo deleite.

Aos pensamentos escabrosos, à vergonha, à malícia
Recebe-os a todos com um sorriso à porta
E convida-os a passar.

Dá graças a quem quer que chegue
Porque todos foram enviados
De longe, como guias.






Rumi (1207 - 1273)






(Tradução de Manuel Silva-Terra in "O círculo do amor", Ed. Licorne, 2016)

















domingo, 19 de novembro de 2017

CANÇÃO XVII (em excerto)


Observa o magnífico repouso
que reside no espírito supremo.
Dele desfruta quem por ele
se dá a conhecer.

Amparado pelos cordões do amor
ondula o oceano da alegria,
e um poderoso som 
irrompe em canção.

Observa o lótus que aí floresce 
sem água. Kabir afirma: 
A abelha do meu coração 
bebe desse néctar.


✻✻✻


Quão maravilhoso é o lótus, 
esse que floresce no coração 
da universal roda de fiar.
Apenas algumas almas puras 
conhecem o seu real deleite.

Há música em seu redor,
e aí o coração compartilha
da alegria do mar sem fim.

Kabir afirma: Mergulha 
nesse oceano de ternura,
e assim permite que todos
os erros da vida e da morte
possam desaparecer.





Kabir (1440 - 1518)





(Versões de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore - "Songs of Kabir", 1915).










sábado, 4 de novembro de 2017

Quatro poemas de amor místico de Rumi


I.

Vem e entra neste círculo
O círculo dos amantes
Anda, vamos atirar-te
Para dentro do jardim do amor.

Sim, tu és água, água que corre
E se deixa represar
Vem, entra em nós
Nós somos a corrente que tudo arrasta.

Vem, andamos todos perdidos
Na maior pobreza
E não sabemos cantar
Se não a canção da ignorância.


II.

O meu coração traz a tua marca
Não anda por aí perdido
Sem os outros, tudo acontece
Sem ti, nada pode acontecer.

Tu, meu vinho, meu desvario
Meu jardim, minha primavera
Meu sono, meu repouso
Sem ti, nada acontece.

Se tu és a cabeça
Eu devo ser o passo
Tu partes, eu nada sou
Sem ti nada acontece. 


III.

Eu estava morto, eis-me vivo
Era lágrima, eis-me riso
Chega a felicidade do amor
Felicidade eterna eu sou.

Ele diz-me: és uma vela
Para quem a assembleia ora
Assembleia não sou, nem vela
Fumo disperso, sim.

Tu és a fonte da luz
Eu sou a sombra do salgueiro
Atinges-me na cabeça
Em fogo, na miséria, aqui me tens. 


IV.

Não sou nem cristão, nem judeu, nem muçulmano
Nem hindu, nem budista, nem sufi, nem zen
Não pertenço a qualquer religião ou cultura
Não sou dono do oeste, não nasci no mar, nem na terra.

Nem natural, nem etéreo
Nem composto por qualquer um dos elementos
Não existo, não sou uma entidade deste mundo
Nem do próximo.

Não descendo de Adão e Eva
Nem de qualquer outra história sobre as origens
O meu lugar não existe
O meu ser não tem corpo nem alma.

Primeiro, último
Interior, exterior
Só alento
Que respira existência humana.



Rumi (1207 - 1273) ¹




(Tradução de Manuel Silva-Terra in "O círculo do amor", Ed. Licorne, 2016)






(1) Djalal al-Din nasceu em Balkh, o principal centro cultural do antigo império persa, uma localidade que actualmente pertence ao Afeganistão. 
Por ocasião das invasões mongóis no território, entre 1215 e 1220, o jovem Djalal e a sua família viram-se forçados a encontrar refúgio na Turquia, à época uma região do império bizantino. Sem que o soubesse, tal evento estaria na origem da alcunha que faria esquecer o seu nome baptismal, pois Rumi, a nomenclatura que o imortalizou, significa "proveniente da Anatólia romana". 
Dedicou-se com afinco nos anos vindouros ao universo académico, tendo sido professor, teólogo e jurista. Era por muitos considerado um mestre sufi (sufismo, a "pérola do Islão"), papel que hoje em dia ainda erroneamente se lhe atribui (chamamos a atenção para o que se escreve no poema IV), embora na sua juventude tenha estudado e seguido as práticas desse ramo do islamismo.  
Não obstante a sincera preocupação que Rumi nutria para com o ensino (já o seu pai fora conhecido por "sultão dos escolásticos"), encontrou-se a dado momento numa posição de obstinada insatisfação relativamente aos dogmas das doutrinas pré-estabelecidas. Desfrutava da vida de um académico abastado, mas os seus dias eram enfadonhamente letárgicos. 
Em 1244 dá-se um encontro que lhe mudaria totalmente a existência, acendendo luzes onde até então só uma negra noite subsistia. Conheceu Shams de Tabriz, um derviche (espécie de asceta) errante, que despertou em seu âmago a centelha que até aí havia permanecido adormecida. Os quatro poemas que aqui se reproduzem terão sido escritos, segundo a lenda, após o encontro com o solitário viajante. 
Rumi abandonou por completo o seu estilo de vida anterior. Centrou-se na música, poesia e dança como formas de abandonar o ego que vive em cada Homem e, assim, conseguir a união ao Todo, ao Divino que também reside em cada um. Trata-se da fana, a base de todas as acções dos grupos derviche: anulação do eu individual e consequente fusão no Divino, como uma gota de água que se permite tombar na imensidão dum oceano sem fim. 
A sua dança (dhikr), que consiste em rodar num eixo imaginário por vezes sem conta, tornou-se famosa e ainda hoje é reproduzida em diversas cerimónias. Consta que foi através dela que Rumi se tornou iluminado.  
Abordando o encontro que lhe fez despegar da aridez da razão em prol da fertilidade do coração, Rumi escreveu:

Durante anos procurei com os sentidos
Agora não
Não estou em algum lugar em particular
Não sei dizer o que procuro
Tudo o que Shams dava o podes receber de mim. 

Faleceu em 1273 em Konya, na Turquia, onde está sepultado. O seu túmulo é ainda motivo de diversas peregrinações e visitas turísticas. 








(Rumi, 1207 - 1273) 





sábado, 28 de outubro de 2017

Cinco haiku de Tagami Kikusha


I.

Em dias de solidão
nem sequer um cuco chama
por esta viajante. ¹


II.

Perdida nos bosques -
apenas um som de folha
cai no meu chapéu. ²


III.

Esta lua e eu
fomos deixadas sozinhas - 
que frio sobre a ponte!


IV.

Nem uma só mancha
na neve desta manhã - 
já os raios do sol. ³


V.

Será que o outono
vem sozinho à minha vida?
Chuva em fim de tarde. ⁴




Tagami Kikusha (1753 - 1826) ⁵ 







(Versões de Luísa Freire in "O Japão no Feminino - Haiku, séculos XVII a XX", Assírio & Alvim, 2007)







(1) Dada a sua parecença, é muito provável que este haiku tenha sido inspirado num outro de Bashô, figura que se sabe ter alimentado a admiração de Kikusha. Eis uma possível tradução do poema de referência:

Vou cheio de tristeza - 
faz-me sentir mais sozinho
o cuco da montanha.  




(2) Escrito em 1781, durante a viagem que a autora realizou ao nordeste nipónico. No caminho de Yamagata para Sendai, Kikusha viu-se por uma noite inteira perdida no meio das montanhas locais. 



(3) Escrito durante a famosa viagem que, de modo inverso, copiou o itinerário da lendária jornada de Bashô pelo Japão. Por terminar de modo idêntico a um haiku da autoria do grande mestre, também este poema terá sido significativamente influenciado por este. Curiosamente, ambos terão sido compostos no Monte Nikko, o que reforça a possibilidade de ser verdadeira a alusão referida.



(4) Vagamente baseado num tanka tradicional, o haiku foi composto após a morte do pai da autora. 



(5) Nasceu na vila de Tasuki, província de Nagato (actualmente, Yamaguchi), filha de um médico. Apesar do que já se constatou, foi-lhe dado à nascença o nome de Michi. 
Poucos anos depois, o seu pai seria designado para um novo cargo, obrigando a família a deixar a sua vila natal. Contrai matrimónio aos dezasseis anos com um descendente de uma família de agricultores, também originária do mesmo local. Contudo, aos vinte e quatro enviúva sem nunca ter dado à luz. 
Foi aquando da promoção do seu pai, e respectiva mudança para Chôfu, que Kikusha se iniciou na arte do haikai, tornando-se discípula de um mestre local, aquele que lhe daria o nome pelo qual se notabilizaria. 
Já viúva, e antes de alcançar a meta dos trinta anos de idade, decide recriar as famosas viagens de Bashô, mas de modo inverso, inspirada igualmente nos relatos das jornadas do monge Shinran, o fundador do ramo Shin do budismo - ideologia pela qual acabou por se atrair. 
Mas as suas viagens não se resumiriam apenas ao que se expôs. Tantas outras empreendeu ao ponto de se ter tornado uma das viajantes femininas mais celebradas da época. Além disso, tornou-se versada em outras artes, não contabilizando aqui o haiku: na caligrafia, na pintura, na cerimónia do chá e, para resumir, em tocar koto de sete cordas, uma espécie de cítara. Evidências que, convenhamos, só corroboram a visão da autora perante o mundo e os seus mistérios: «O princípio que me guia tem sido sempre apreciar a vida».
Somadas todas as parcelas, decerto poucos discordarão das palavras de Makoto Ueda a respeito da autora, ele que se tornou responsável por traduzir partes do seu trabalho e, assim, apresentá-lo de modo consistente ao mundo ocidental: «Considerando as restrições colocadas nessa época à conduta feminina, pode dizer-se que Kikusha foi um espírito livre que viveu a vida à sua maneira». 
Humildemente, aqui lhe fazemos a nossa homenagem.








(Tagami Kikusha)





segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Três poemas de Wang Fan-chih (Parte II)


I.

Será bom por fim contemplar a cidade do nirvana¹, 
e assim deixar estas terras dos tempos do fim.
O céu concedeu-me vida, mas a morte
é o derradeiro abraço quente da terra.
Finalmente, vida e morte nada significam para mim
- sou rio em eterno fluir.


II.

Não necessitas de espelho para observar o teu rosto,
não tens de ser abastado para fazer caridade.
Senta-te apenas, e ser-te-á descoberto o rosto
do Buda que vive em ti


III.

Escuta bem: desfruta do teu tempo.
Na verdade, não te sobra muito:
ainda há pouco nascias
e em breve já terás partido.




Wang Fan-chih (séc. IX)








(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de J.P. Seaton, in "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)










(1) O conceito budista de "Nirvana" é amplamente divulgado e sumariamente conhecido, sendo em geral entendido como o último estágio de evolução espiritual. 
Trata-se, claro, de um estado de ser, alcançado após a transcendência do desejo e dos apegos materiais manifestados por aqueles que ainda vivem iludidos quanto à sua real identidade. Em suma, a compreensão profunda de que o ser é mais do que aquilo que a sua mente dita.
Contudo, o autor, ou autores por detrás do nome Wanh Fan-chih, concederam um toque poético ao conceito, adicionando a palavra "cidade", o que poderá induzir em erro o leigo, já que não se trata de um qualquer lugar físico, embora confira essa sensação. A referência é ao "estado de Nirvana", à iluminação da consciência, ao florir do divino no mundano. Aqueles que o experienciam, portanto, dir-se-ão, sob essa óptica, "cidadãos do Nirvana", título que o poeta (ou poetas, repetimos) sabia ser seu de direito, dada a transformação interior que nele entretanto ocorrera. 


(2) Para uma compreensão mais directa e clara por parte do leitor, este pequeno poema foi alvo duma determinada arrumação de palavras durante o seu processo de tradução, adicionando-se inclusivamente pontes que não constavam na versão inglesa, que por si só era algo confusa e repetitiva, a carecer de melhor ligação entre versos.
Mas não se pretende realizar uma avaliação crítica ao seu tradutor, que decerto se empenhou ao máximo no labor da decifração. O que importa para o caso em concreto é simplesmente referir a extrema aproximação entre o método sugerido pelo poeta e o meio mais comum de meditação no budismo zen: "sentar-se quieto e em silêncio". 
A lógica por detrás do acto prende-se com o facto de em silêncio e em quietude o fluxo mental do ser humano decrescer, tornando-o assim mais vazio de conteúdo e, como tal, próximo daquilo que na realidade ele é. Descobrir o «Buda que vive em ti» é, pois, encontrar o divino em nós, atingir o que se referiu antes como sendo a «cidade do nirvana». 










sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Três poemas de Wang Fan-chih (1)


I. 

Mendigar pode prover uma boa vida,
levar-te para além da fome e do frio.
As cabeçorras rapadas destes monges taoístas
vivem sobre belas e rechonchudas bochechas. 


II.

Nunca houve um pai e um filho tão próximos 
quanto aqueles dois. Mil moedas de oiro 
não compravam um olhar duvidoso 
ou uma palavra maldosa de um sobre o outro.
Ainda assim, quando um deles 
de súbito adoeceu, tendo morrido, o outro 
afastou-se e permaneceu bem longe,
temendo pela sua própria vida.


III.

Poderão algum dia voltar a casa?
Labuta sem fim:
esposas em trabalhos forçados,
maridos reunidos à força,
rumo à guerra.






Wang Fan-chih (séc. IX) 





(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de J.P. Seaton, in "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)






(1) Conforme foi dito numa publicação anterior, regressa-se a este autor com uma breve selecção de poemas que espelham o seu lado mais crítico sobre a sociedade e o mundo, constantemente regado pela ironia que o caracteriza. Expõe o ridículo, a injustiça e a incoerência humana de modo simples e directo, sem lugar para desculpas ou hesitações. Graças a este olhar, uma imagem mais clara do tempo que viveu é-nos dada com uma limpidez louvável. Assim nasce a incómoda constatação que, à parte a era e o lugar, pouco terá mudado com o render dos tempos...
















sábado, 9 de setembro de 2017

Quatro poemas de Wang Fan-chih


I.

Vento e poeira entram 
por esta pequena cabana de palha.
Uma manta rasgada cobre a cama.
Se alguém vier, será convidado a entrar.
Posso fazer um monte de terra
para que nos sentemos.


II.

Muitos são os que desejam altos cargos.
Um trabalho que pague o suficiente
para encher duas tigelas de arroz
é o quanto me basta.
O fogo que brando aquece o pote do arroz
servirá também para aquecer meus pés.


III.

Sou pobre, então riem de mim.
Sou tão pobre que o riso alheio encanta-me.
Nenhum boi, nenhum cavalo,
nenhum bandido me preocupa.


IV.

Não desejo ser verdadeiramente rico,
não quero ser realmente pobre.
Deixa que o ontem se transforme em hoje
e que o hoje se torne no amanhã.
Se puderes aprender a nada querer,
talvez te tornes num homem verdadeiro.



Wang Fan-chih (séc. IX) ¹





(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de J.P. Seaton, in "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)







(1) Eis mais um caso de uma figura que, por exemplo, a par de Han Shan e Shih Te, já merecedores da nossa atenção neste espaço de partilha, permanece envolta numa aura obscura e misteriosa. Tanto que, à semelhança dos outros nomes citados, muitos consideram o seu trabalho não o resultado de uma só pessoa, mas de várias. 
Na verdade, como o "Montanha Fria" e o "Orfão", Wang Fan-chih é um nome cuja tradução se decifra por "Sr. Wang, um leigo budista", tão bizarro que de pronto se aceita trocar a designação de nome pela de título. Embora seja possível alguém naquele tempo ter assinado um conjunto de poemas sob tal epígrafe, o mais provável será tratar-se de uma personagem fictícia, cuja produção poética se incrementou devido à contribuição de um certo número anónimo de poetas, para o caso nos finais da dinastia Tang. (Num aparte, note-se que o termo traduzido por "leigo" não significará o usual "ignorante", mas sim um monge secular, isto é, que não realizou votos religiosos. Apesar da inclinação budista, notada em diversos poemas, cuja partilha prometemos desde já realizar em publicações futuras, a figura de Wang, fictícia ou não, era a de um leigo assumido.)
Portanto, como já se referiu, o poeta real ou ficcional terá vivido algures no século IX da nossa era, nos derradeiros anos da dinastia Tang, um período terrivelmente assolado pela guerra e graves crises sociais e económicas, com os surtos de peste e a escassez de alimentos à cabeça do rol. A pobreza que neste primeiro conjunto de poemas tanto parece ser apregoada como um meio de vivência simples e humilde, não era decerto difícil de atingir naqueles negros anos. 
Os poemas de Wang seriam bastante populares na época em causa. Contudo, menos de uma dúzia sobreviveram, e graças à sua inclusão, por parte doutros poetas distintos, nas suas pessoais colecções de favoritos. Muitos outros, apesar de tudo, lhe são atribuídos. E com segura razão. Mas somente seriam descobertos séculos depois, nos primórdios do século XX, quando se procedeu à abertura da biblioteca monástica de Tun-huang, encerrada por volta do ano 1000, quando as tropas chinesas estariam a perder o controlo daquela região. Mais de três pergaminhos se outorgam a Wang, cuja tradução para uma língua ocidental se deveu a Paul Demiéville, algures por 1950. Longo tempo permaneceram dormentes essas e outras obras de provavelmente igual valor...
Mas não nos equivoquemos. Nem tudo o que se atribui a Wang Fan-chih é de extraordinária qualidade. Os próprios temas e modos de construção dos textos tendem a divergir um pouco, apesar de em linha geral se manterem os preceitos tipicamente budistas, um tom irónico e por vezes até cruel, um negrume de sentido algo lúgubre e uma moralidade corrosiva para com falsidades de diversos calibres. Dentro desta mostra, os poemas seleccionados para esta primeira apresentação até que primam por uma serenidade bastante discreta, dado que até vernáculo era comummente anexado aos versos dos seus poemas. 
Considerando tudo isto, e somando as peculiares experiências da desafiante época em que viveu, as vozes que de Wang Fan-chih emanam são deveras singulares, um testemunho claro e crítico de um tempo cruel e obscuro, decerto merecedoras da nossa melhor atenção, não obstante a imensidão temporal que agora nos separa. 










domingo, 6 de agosto de 2017

BANQUETE DE UMA NOITE DE PRIMAVERA NO JARDIM DOS PÊSSEGOS E DAS AMEIXAS



O céu e a terra são o albergue de passagem de todas as coisas. O tempo é o hóspede em trânsito de todas as gerações. Que alegrias podemos ter, se flutuamos na vida como num sonho?

Boas razões tinham os antigos para, empunhando tochas, até a noite aproveitarem para viajar. Quanto mais quando a primavera solarenga nos atrai com as suas paisagens esfumadas e a natureza nos seduz com o bordado da sua escrita!

Reunimo-nos no perfumado Jardim dos Pêssegos e das Ameixas para discorrer sobre as alegrias da divina fraternidade. Todos os meus irmãos são talentosos e belos, todos são Huì-lian (¹). Cantamos e recitamos as nossas poesias e sou eu o único que devo sentir vergonha perante Kàng Lè (²).

O gozo sereno da paisagem deste jardim nunca termina, discorrendo sobre temas elevados que se vão tornando cada vez mais transparentes.

Desenrolamos esteiras requintadas e, sentados entre as flores, passamos taças de vinho e embriagamo-nos sob a lua.

Se não fizermos boas obras, como poderemos revelar os nossos sublimes pensamentos?

Se alguém houver que não seja capaz de escrever um poema, terá de ser castigado segundo as regras do Jardim Jin-gu (³), pagando uma multa de três copos de vinho.




Li Bai (701 - 762).






(Traduções de Cláudia Ribeiro e de Zhang Zhèng-Chun in "O Rosto do Vento Leste - Doze textos de prosa clássica chinesa", Assírio & Alvim, 1993)




(1) Xiè Huì-lián foi um escritor precoce que viveu durante o período das Dinastias do Sul. Aos dez anos de idade já compunha poemas de considerável valor. Foi discípulo de Xiè Líng-yún.


(2) Outro nome pelo qual o mestre antes referido era conhecido.


(3) O nome do jardim onde Cháng-jián organizava banquetes para os convidados comporem versos. 








(Li Bai brindando à lua)


sábado, 8 de julho de 2017

Cinco haiku de Enomoto Seifu


I.

Ao romper do dia,
à conversa com as flores,
uma mulher só.


II.

Paz e silêncio - 
vinda da chuva, a borboleta
entra no meu quarto.


III.

Fim de Primavera - 
num conjunto de artemísias
há ossos humanos. ¹


IV.

Bonecas sempre iguais - 
eu não tive outro remédio
senão envelhecer.


V.

Grito de faisão - 
ressoando na montanha,
a voz do silêncio. ²




Enomoto Seifu (1732 - 1815) ³





(Versões de Luísa Freire in "O Japão no Feminino - Haiku, séculos XVII a XX", Assírio & Alvim, 2007)






(1) Este haiku terá sido escrito algures entre 1782 e 1787, durante um período de grave escassez de alimentos no Japão, o que originou o registo de diversas mortes, especialmente nas camadas socialmente mais expostas. 
No seu haiku, Enomoto dá a entender que durante um passeio dado no fim de uma primavera daquele período ter-se-á deparado com um conjunto de ossos humanos sob uns arbustos, provavelmente os restos mortais de alguém que, abandonado à sua sorte, não foi capaz de subsistir a um longo inverno.



(2) Enomoto compôs este haiku durante a sua estadia no templo Zen de Kamakura. 



(3) Enomoto Seifu nasceu no seio de uma família de samurais, recebendo desde sempre a melhor educação possível. Contudo, somente após a viuvez é que desenvolveu verdadeiramente a sua arte poética, e sob a orientação de Kaya Shirao. Após a morte do mentor, seguiu uma via monástica. 
Apesar da alta qualidade da obra que ia produzindo nesses anos, até à sua morte a mesma não era propriamente conhecida. Só depois do seu falecimento é que o filho de Enamoto decidiu publicá-la, e sob a epígrafe de "Os haiku da monja Seifu".
Para muitos críticos, Enomoto Seifu foi a mais importante poetiza do Japão pré-moderno no que à elaboração do haiku diz respeito, uma figura só capaz de rivalizar com a grandeza do mestre Basho. Uma das suas principais inovações temáticas, segundo Makoto Ueda, é o intenso «desejo de um mundo transcendente de pureza e solidão», aspecto esse mais visível nos dois primeiros haiku aqui apresentados. 







(Imagem do templo Komyoji em Kamakura)




sexta-feira, 30 de junho de 2017

Quatro poemas de Shih Te


I.

Se quiseres ser feliz,
não há outra via que não a do eremita. 
Nas matas, as flores crescem 
até se assemelharem a um brocado sem fim
- a cada nova estação renovadas cores.
Toma o teu lugar junto dum penhasco
e direcciona o rosto para poderes observar
a caminhada da lua.
E eu? Deveria permanecer numa alegria serena,
mas não consigo deixar de pensar
nas outras pessoas.


II.

Sempre fui Shih Te, o órfão.
Não é um nome acidental,
embora tenha família.
Han Shan é meu irmão.
Somos dois homens de coração idêntico
- entre nós não há a necessidade
dum amor vulgar.
Se desejares saber a nossa idade...
Tal como o Rio Amarelo, não é clara.


III.

Os meus poemas são poemas,
ainda que certas pessoas os chamem de sermões. 
Bem, poemas e sermões têm de facto algo em comum:
quando os lês, deverás ser cuidadoso.
Tem atenção a cada linha, mergulha em cada detalhe.
Não digas apenas que são fáceis.
Se viveres a tua vida deste modo,
imensas coisas curiosas poderão acontecer.


IV.

Ganância, ira, ignorância: 
bebe longamente destes vinhos envenenados 
e ébrio repousa na escuridão, nada sabendo...
Faz da riqueza o teu sonho: 
e o teu sonho será uma gaiola de ouro. 
A amargura é a causa de todo o azedume.
Desiste de tudo ou vive no seio da ilusão.
É bom que despertes rapidamente.
Desperta e retorna a casa.



Shih Te (séc. IX) ¹




(Versões de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por J. P. Seaton em "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)





(1) Mais um nome cuja história de vida permanece maioritariamente na obscuridade. Aliás, como o poema que nesta publicação surge em segundo lugar permite adivinhar, "Shih Te" nem sequer é um nome por si só, mas uma alcunha, podendo significar "órfão", como se optou, mas igualmente "abandonado", "sem tecto" e até "acolhido" ou "adoptado". 
Uma das histórias possíveis de serem aceites conta que, um dia, Feng Kan, um monge poeta do templo Kuo-ch'ing, nas montanhas T'ien-t'ai, passeando por uma povoação perto desse local, escutou o choro de uma criança. Teria ela aproximadamente dez anos de idade, e fora abandonada pelos seus pais. O monge acolheu a criança e levou-a para o seu templo, que o eremita Han-Shan costumava visitar em busca de trabalhos pontuais, ficando o jovem abandonado a desempenhar diversos papéis na cozinha do edifício religioso. 
Shih Te, Han Shan e Feng Kan formaram um trio célebre e uma amizade profunda, embora o nosso poeta de hoje fosse consideravelmente mais novo que os outros dois. Escreveram diversos poemas, espalhados por rochas e cercas, além do local tradicional de registar a palavra escrita, todos eles trabalhos com óbvias influências do pensamento budista, mas não só. De Shih Te terão sobrevivido cerca de cinquenta poemas, todos eles muito breves, não mais que dez linhas, em regra, compostos de modo bastante directo e simples. A influência de Han Shan nos seus escritos é inegável. 
O problema maior, no que toca à autenticação dos trabalhos, reside no facto de Shih Te ser um apelido que muito provavelmente foi adoptado por outros que escolheram «a via do eremita» na quietude da famosa montanha. Significando, entre outras coisas, "órfão", como já se sabe, muitos ter-se-ão visto e sentido em lugar idêntico, espiritualmente falando, começando a assinar os poemas que então escreviam com a mesma nomenclatura. De facto, dos poemas recolhidos que registavam tal nome as discrepâncias de género e estilo são notórias, o que levanta fundamentadas suspeitas. Não será, pensa-se, o caso dos poemas aqui apresentados, legitimados por uma maior lógica de traçado e conteúdo, não obstante a dificuldade de tal certificação. 






(Shih Te e seu "irmão" Han Shan)