quinta-feira, 22 de junho de 2017

Quatro Haiku de Kawai Chigetsu


I.

Sozinha na cama,
escuto um mosquito macho
murmurar uma triste canção. ¹


II.

Como espantalhos,
solitárias e encantadoras
- as minhas irmãs monjas. ²


III.

Um rouxinol do bosque ³
- minhas mãos no lava-loiça
repousam por instantes.


IV.

Chorando como se fosse 
dona de toda a solidão 
- uma pomba no outono. 



Kawai Chigetsu (1634? - 1718). ⁴





(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções em inglês de Makoto Ueda, em "Far Beyond The Field - Haiku by japanese women" (Columbia University Press, 2003))







1) Haiku provavelmente escrito por volta de 1686, pouco tempo após a morte do seu marido.


2) Refira-se que apesar do que o poema poderá sugerir, Chigetsu, ao contrário de outras viúvas suas conhecidas, nunca se internou em qualquer convento, apesar de muitas vezes surgir conotada como "monja", permanecendo nos derradeiros anos em sua casa, desfrutando da vida familiar, muito depois de ter rapado totalmente o seu cabelo. O haiku foi escrito em 1692, no sétimo aniversário da morte do marido, uma data significativa para os preceitos budistas. 


3) A versão inglesa propõe a forma "bush warbler", ou seja, "rouxinol do bosque". Contudo, no poema original surge a palavra uguisu, que em inglês corresponde literalmente a "rouxinol japonês do bosque", o Horornis diphone, exemplar típico do Japão e de outros países asiáticos. Ou seja, um tipo de rouxinol em concreto e não um mais vago que a tradução inglesa poderia sugerir. Naturalmente, compreende-se a omissão do termo que faz referência à sua terra nativa, pois a autora nunca o utilizaria. Transpondo tudo isto para o português, dado que a espécie não existe por cá, poder-se-ia utilizar a sua versão mais aproximada, que seria o rouxinol-bravo (Cettia cetti), dado pertencer, como o seu primo japonês, à alargada família dos Cittiidae e, como este, tratar-se de um exemplar mais facilmente escutado do que observado, um amante de densas matas. Contudo, uma vez que o espécime português não existe na Ásia, e considerando também a extensão desta família de aves canoras insectívoras, optou-se pela forma que mais fielmente indica o género de pássaro cujo canto mereceu por parte de Chigetsu uma pausa nas suas tarefas diárias - o rouxinol do bosque.


4) Muito pouco se sabe sobre os primeiros anos desta autora. Apenas que terá nascido em Usa, perto de Quioto, e que enquanto jovem serviu na corte imperial. Casou-se com Kawai Saemon, um importante mercador que geria um extenso negócio de transportação em Otsu, perto do lago Biwa. Após a sua morte, dado que nunca geraram filhos, Chigetsu acabou por adoptar o seu irmão mais novo e fazer dele o herdeiro do negócio da família. Curiosamente, seria este quem iria introduzir a autora no mundo da poesia. Tendo sido um dos discípulos de Basho, Otokumi e a irmã convidavam amiúde o grande poeta para visitar a sua casa, compondo poemas (haiku e renku) juntos. Na verdade, Basho e Chigetsu tornar-se-iam grandes amigos, além de mestre e discípula. Muitos estudiosos afirmam até que Basho, solteiro inveterado, nunca terá sido tão íntimo de outra mulher que não Chigetsu, dez anos mais velha que ele. Esta, com o auxílio de sua nora, teceram a roupa que Basho usou na sua famosa viagem. Existe, inclusive, uma história curiosa que terá ocorrido numa das vezes em que o mestre do haiku ficou em casa da poetiza, e esta, sabendo iminente a partida, lhe terá pedido uma recordação sua. Basho terá dito o seguinte: «Alguém que está prestes a completar sessenta anos pede-me uma recordação. Que deprimente! Deverá desejar que eu morra primeiro que ela!». Mas, rindo, Basho acedeu, oferecendo-lhe uma fotografia sua e a cópia de um dos seus manuscritos.
Chigetsu viria a falecer uma avó feliz, em 1718.









quarta-feira, 31 de maio de 2017

Três de "Os cinquenta poemas do ladrão de amor"



Mesmo agora     assalta-me a recordação
Desses olhos de corça assustada
Dessa voz trémula     das lágrimas que lhe invadiam
A face     da cabeça vergada sob o peso da amargura
Quando escutou a minha sentença




Mesmo agora     por mais que me esforce
Não me recordo de alguma vez ter contemplado
Um rosto como o seu     A sua beleza
Eclipsa a da deusa do amor e a da lua




Mesmo agora     o meu coração sofre noite
E dia     por nunca mais poder voltar
A ver     nem que seja por um instante
Esse rosto belo como a lua cheia
Cuja frescura faz empalidecer os jasmins






Bilhana Kavi (séc. XI)






(Versões de Jorge Sousa Braga in "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo (e outros poemas eróticos da Índia antiga)" - Assírio & Alvim, 2004)










("Lonely Lady on Terrace", Virahini Nayika)




segunda-feira, 15 de maio de 2017

O convite de Han Shan


Deste o primeiro passo no caminho de Han Shan?

A estrada de Han Shan não tem fim!
O desfiladeiro é longo: rochedos, rochedos
e mais rochedos erguem-se por todo o lado.
A torrente do rio é vasta, e os juncos 
quase ocultam a grande distância da outra margem.
O musgo é escorregadio, mesmo num dia sem chuva.
Os pinheiros cantam: o vento é suficientemente real.

Quem se apronta a num salto se libertar 
dos rastros do mundo e comigo se sentar 
entre alvas nuvens?





Han Shan (circa 700 - 780)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por J.P. Seaton, in "Cold Moutain Poems" - Shambhala Publications, 2013)








(O sorriso de Han Shan, o "Buda da Montanha Fria")



terça-feira, 2 de maio de 2017

CANÇÃO XIV


O rio e as suas ondas
são um só movimento.
Onde está a diferença
entre o rio e as suas ondas?

Quando a onda se ergue,
é água que se levanta;
quando a onda tomba,
é água que cai.

Amigo: onde reside
a diferença?

Só porque foi nomeada onda
deverá não mais
ser considerada água?

Dentro do Brahma (*) supremo,
os mundos contam-se
como as contas dum rosário.

Observa esse rosário
com olhos de sábio.





Kabir (1440 - 1518)




(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore - "Songs of Kabir", 1915).







(*) Brahma é o primeiro deus da sagrada trindade do hinduísmo, a Trimurti, seguido de Vishnu e Shiva. Originalmente dotado de cinco cabeças e oito braços, representa a força criadora do Universo. À semelhança da noção católica de "Deus", Brahma é visto como o "Criador" por excelência, senhor de todo o conhecimento. Uma das possíveis traduções do seu nome é a de "Realidade Última", embora sobre este tema as opiniões sejam bastante divergentes.
Iconograficamente é representado por quatro cabeças, uma por cada Veda (os livros sagrados do hinduísmo), e em quatro dos seus oito braços ampara um rosário (note-se a referência no poema) simbolizando o tempo, um recipiente com água, uma espécie de colher e os sagrados textos dos Vedas.
Apesar de num passado remoto ter gozado de uma enorme popularidade, com o dobrar dos séculos foi perdendo-a para as outras divindades da mesma trindade. Restam actualmente poucos templos em sua honra. O mais emblemático situa-se em Pushkar.








(Fonte: Smithsonian Ocean Portal)



quarta-feira, 19 de abril de 2017

Um de "Os cinquenta poemas do ladrão de amor"



Mesmo agora   se a visse de novo
A essa rapariga de olhos de lótus
O corpo soçobrando devido ao peso dos seios
Estreitá-la-ia entre os meus braços
E beberia da sua boca como um louco
Como uma abelha insaciável   sugando uma flor



Bilhana Kavi (séc. XI) (*)





(Versão de Jorge Sousa Braga a partir das traduções em línguas ocidentais da versão comum no norte da Índia, in "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo (e outros poemas eróticos da Índia antiga)" - Assírio & Alvim, 2004)




(*) Trata-se de um poeta nascido em Caxemira, Índia, no século XI da nossa era, ao qual se atribui a autoria deste Caurapankasika, ou "Os cinquenta poemas do ladrão de amor", donde se retirou este que hoje aqui se partilha - o terceiro de cinquenta, conforme o organiza a versão portuguesa, dado que se trata, na verdade, da terceira estrofe de um só poema, composto por cinquenta estrofes. 
Segundo a lenda, o Rei Madanabhirama elegeu Bilhana como preceptor de sua filha, mas o relacionamento de ambos cedo escalou para algo de mais íntimo e intenso. Descoberto o crime, Bilhana foi encarcerado e condenado à morte por empalamento - embora neste ponto os relatos divirjam, pois em certas versões o poeta é condenado à forca e, noutras, ao exílio. Uma facção dessas histórias refere que a presente obra terá sido escrita em sânscrito na prisão, enquanto Bilhana aguardava o seu julgamento; outras, nitidamente carregadas de um maior fôlego poético, afirmam que as estrofes terão sido declamadas enquanto o poeta subia, um por um, os cinquenta degraus que o levariam ao cadafalso, compondo assim um poema (ou estrofe, como vimos) por degrau. Segundo esta versão, a beleza dos versos nascidos desse tão inspirado improviso era tal que a própria deusa Kali, uma manifestação da deusa Parvati, esposa de Shiva, intercedeu junto do Rei para que a condenação não fosse levada a cabo.
Independentemente do que terá realmente acontecido, já que a ausência de provas claras levou ao incremento de versões fantasiosas sobre o nascimento deste longo poema, a verdade é que o Caurapankasika é uma das obras mais populares da Índia antiga, preservada pela tradição oral, o que justifica os diversos manuscritos a respeito existentes, não só elaborados em diferentes línguas como com desenlaces distintos entre eles. 
Foi o primeiro trabalho literário de origem hindu a ser traduzido para uma língua europeia - no caso o francês, em 1848.











sexta-feira, 7 de abril de 2017

CANÇÃO XVII (excerto)


O mundo inteiro realiza as suas obras
e comete os seus erros,
mas poucos são os amantes
que conhecem o Amado.

O indagador devoto 
é aquele que em seu coração 
une o fluxo do amor e do desapego,
como se unem os rumos
do Ganges e do Jumna. (1)

No seu coração, a sacra água 
fluirá de dia e de noite.
E, assim, a sucessão 
de nascimentos e mortes
conhecerá o seu fim.





Kabir (1440 - 1518)



(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore in "Songs of Kabir", 1915).





(1) Dois dos sete rios sagrados da Índia, sendo o Jumna, ou Yamuna, um afluente do famoso Ganges.









(Gravura de Samsara, a "Roda de Nascimentos e Mortes")





sexta-feira, 24 de março de 2017

LEMBRANDO A SINOS DOIRADOS


Arruinado e doente: um homem de duas medidas.
Bela e inocente: uma menina de três.
Não nasceu rapaz, mas ainda assim 
foi melhor do que não ter nenhum.
Para acalmar um sentimento incómodo,
de tempos a tempos um beijo era dado.

Então o dia surgiu. Subitamente levaram-na de mim.
A sombra da sua alma vagueou nem sei por onde.
E quando recordo a hora em que morreu,
e como balbuciava estranhos sons,
estando ainda a aprender a falar, 
lembro como os laços de sangue e carne
apenas nos ligam a uma imensidão
de dor e sofrimento.

Por fim, evocando o tempo
anterior ao seu nascimento,
pelo pensamento e pela razão
pude afastar de mim os lamentos.

Desde que o meu coração a esqueceu
muitos dias se passaram,
e por três vezes o inverno
se transformou em primavera.
Esta manhã, por um momento,
o velho pesar regressou,
ao na estrada encontrar
quem enferma a acolheu
e dela então cuidou.



Bai Juyi (774-846)






(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Arthur Waley).







(Narcisos, os famosos "Sinos Doirados")